A Ponte de Dois - Um conto de ficção cristã
A
Ponte de Dois é um conto de ficção cristã sobre a teimosia humana e a graça
de Deus. Nele, há a releitura de uma história bíblica, em que o protagonista
conhecerá uma criatura peculiar sobre A Ponte de Dois.
A
Ponte de Dois
Por
onde ia, Benji, um homem escolhido por Deus, mantinha-se reservado, seu grande
chapéu sempre cobria seu rosto. Ele também usava uma máscara de metal para
proteção. Andarilhos são solitários. Naquela noite, contentou-se em pagar uma
mulher por sua companhia. Antes mesmo dela sair, Benji dizia baixinho, enquanto
olhava para o teto: “estou cansado disso, sei que tu também estás”. Sombras
passaram do lado de fora e seu instinto já o fez esticar o braço em busca de sua
espada, mas não a encontrou. “Aquela maldita armou para mim.” Espiou pela
janela e viu diversos homens cercando o local, com arcos e flechas. Um deles,
seu maior inimigo, disse: “Essa flecha tem o seu nome, você morrerá por ela”. Benji
foi para a parede oposta da porta, tomou impulso e saiu correndo. Bateu na
porta com o ombro e a arrancou do batente, colocando-a sobre a sua cabeça. Não
demorou para que saísse da cidade, sem arranhões, apenas com diversas flechas
fincadas na porta que o protegia. Pegou a que continha o seu nome gravado por
precaução e, ao perceber que estava salvo, decidiu ir para o outro lado da
montanha. Descansou em seu cume.
No
dia seguinte, desceu e encontrou alguns trabalhadores rurais que o advertiram:
—
Por aí terá que passar pela Ponte de Dois, você não quer encontrar o Goblin que
vive lá.
—
E o que este Goblin faz?
—
Ele concede desejos, mas você sabe —
—
Então é para lá mesmo que eu vou.
Benji
não quis escutar a parte em que os desejos concedidos sempre têm um preço. A
jornada foi longa, Benji não tinha nada com ele, apenas a roupa do corpo e aquela
única flecha. Alimentou-se de frutas e tomou água de alguns riachos. Viu o
reflexo do sol formando letras na água: “só eu que te concedo favores.” Noite
adentro, encontrou a ponte e viu no meio dela uma criatura com os membros finos
e uma grande barriga. Era o Goblin, com seu narigão e olhos amarelos brilhantes,
ele sorria. Benji, em sua imprudência, aproximou-se e disse:
—
Ouvi dizer que você concede desejos.
—
Às vezes eu concedo, mas só às vezes. — Respondeu o Goblin, com uma voz ao
mesmo tempo áspera e aguda.
—
É a única coisa que vai dizer?
—
Me desculpe. Sou muito atrapalhado quando converso com humanos. — O Goblin riu.
— Eu esqueço que vocês querem dizer mais coisas do que realmente dizem. Você
não está curioso para saber o porquê essa ponte se chama A Ponte de Dois? Eu
que a nomeei, afinal, é minha ponte e posso dar nome às coisas que são minhas,
e já que a ponte é minha, dei um nome a ela. Inclusive, qual o seu nome?
—
Sou Benji. Olha, sei que devo ser gentil com aqueles que podem me conceder um
desejo, mas desde ontem à noite, não estou de bom humor. Posso te falar o que
quero?
—
Tudo bem. Tudo bem. O que você deseja? — Disse com uma feição tão amigável que
você esquecia de sua aparência hedionda.
—
Desejo encontrar uma mulher pela qual me apaixonarei.
—
Ah! É só isso? — O Goblin coçou o queixo. — Eu posso fazer isso. Posso conceder
o seu desejo.
—
E como acontecerá?
—
Já sei. Quando você chegar na próxima cidade, ela estará lá. A mulher pela qual
você se apaixonará estará na próxima cidade.
—
Não sei se acredito em você, mas se for verdade é melhor eu ir andando.
—
Se não a encontrar, pode voltar aqui. Volte aqui se não a encontrar.
Benji
deu as costas, mas antes que se afastasse o suficiente, ouviu o Goblin:
—
Veja bem, para conceder o seu desejo há uma regra. Existe uma regra para que
seu desejo se torne realidade.
—
Você não falou nada sobre isso.
—
É por que o senhor não quis me ouvir, eu ia falar mas o senhor não quis saber
sobre o nome da ponte, lembra-se? Ela se chama assim porque eu concedo desejos
contanto que você me dê alguma coisa. Você deve me dar algo para que eu realize
seu desejo.
—
Pensei que era por outro motivo. Bem, eu não tenho nada.
—
E esta flecha? Tem até seu nome.
—
Pode ficar.
—
Eu não quero roubar-lhe a sua única flecha. Você entendeu? Ainda não se
pergunta o que isso tem a ver com o nome da ponte? Quando eu lhe conceder o seu
desejo, esta flecha se duplicará. Eu quero que volte aqui e me dê a cópia dela,
ou até mesmo a original, já que serão idênticas. Mas pode me dar a cópia, pois
serão iguais. Você que escolhe. Mas você deve voltar, se não, irei até você.
Irei até você se você não voltar aqui com a flecha.
—
E como recusar isso? No final das contas, eu não perco nada. Mas me responda
mais uma coisa, por acaso você é fascinado pelo número dois?
—
Eu duplico objetos porque só preciso de um e não quero tomar o que é seu. E,
para falar a verdade, considero números fascinantes. Eles são apenas uma ideia,
mas são tão reais quanto qualquer outra coisa. Você não pode encontrar o número
dois aqui ou ali, não pode pegá-lo na mão, nem mesmo se procurar por ele muito
bem, porém, ele existe. Números são ficções tão reais quanto a realidade. A
realidade é composta pelo conceito de números.
Benji
não queria mais conversar. Afastando-se, a risada do Goblin ficava cada vez
mais baixa.
Chegou
à cidade mais próxima, procurando por sua paixão. Havia uma mulher com um véu
escondendo o rosto. Benji sentiu algo, mesmo não vendo seu rosto com clareza. A
mulher começou a se distanciar enquanto espiava Benji. O instinto de Benji já
lhe dizia que aquilo era suspeito, uma armadilha. Parecia que ela o atraía para
algum lugar, mas a possibilidade de se apaixonar falava mais alto que a cautela.
Ele a ouviu dizer, a distância: “solte esta flecha e venha”, ele obedeceu.
Benji não se importou de estar em um beco, parecia hipnotizado. Em um telhado
próximo, seu maior inimigo cochichava: “eu disse que morreria por essa flecha.”
Benji
disse à mulher:
—
Não irá mostrar o rosto?
—
Não aprendeu com sua última experiência? Talvez você esteja em perigo. —
Respondeu a mulher.
—
Vejo que já ouviu falar sobre mim, deve saber que não é tão fácil me matar.
O
inimigo de Benji atirou a flecha. Benji estava vulnerável, não conseguiu reagir.
Ainda assim, a flecha atingiria a parte de sua máscara que protegia seu nariz,
mas enquanto a flecha voava, a mulher retirou o véu. No mesmo instante, Benji
se apaixonou, e a flecha se tornou duas, atingindo os dois olhos de Benji, que
caiu no chão, gritando. Dois homens se aproximaram dele e o prenderam.
Fizeram
de Benji uma atração, o homem dos olhos de flechas. Humilharam-no. Ele não
sabia quanto tempo havia passado e a luz do sol não servia mais para ele. Até
que um dia o chamaram para ser o entretenimento da noite, a mesma noite em que
o Goblin veio coletar sua flecha.
Benji
ouviu a voz do Goblin e, se pudesse, sua raiva aumentaria. O Goblin disse:
—
Eu disse que viria até você. Espero que não esteja nessa situação por culpa
minha. Que não seja culpa minha que você esteja assim.
—
Tudo isso por causa de uma flecha?
—
Vim coletar minha flecha, já que a flecha é minha.
—
Você sabia que isso aconteceria?
As
risadas de escárnio enfureceram Benji. Ele ergueu a cabeça, como se pudesse
olhar para os céus. “Reconheço meus erros. Me perdoe, Yeshua. Fui teimoso e
cego. Tenha misericórdia de mim.” O Goblin disse:
—
Se eu pegar minha flecha, podemos iniciar um novo desejo, mas só se eu pegar
minha flecha, é claro.
—
Não, seu verme! Não quero mais nada de você.
—
Posso até fazer mais flechas se você desejar, mas só se você desejar.
Benji
parecia estar louco, gritando sozinho. As risadas aumentaram e sua fúria
também. Olhou para o alto novamente. “Só tu, o Deus verdadeiro, Yeshua,
concedes o favor ao homem. E se for da tua vontade, me conceda mais um. Que na
minha morte, possa derrotar mais inimigos do que em minha vida.” O Goblin arrancou
uma das flechas que estava presa nos olhos de Benji, virou as costas e saiu
voando. “Se este maldito pode fazer uma flecha, tu podes fazer milhares.” Benji
se livrou das correntes, arrancou a outra flecha e a arremessou em direção a
plateia. A flecha se multiplicou e atingiu o Goblin e mais três mil corações.
Benji caiu e, por conta do sangramento, também morreu.

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