Praias de Prédio - Um conto de ficção cristã

Praias de Prédio é um conto de ficção cristã sobre inveja e acharmos que sabemos o que é melhor para nós, e não Deus. Nele, Anthony deseja ter outra vida, uma vida que, na verdade, ele nem conhece. Seu desejo será atendido. Ele se arrependerá ou se contentará com as Praias de Prédio?




Praias de Prédio      


    Anthony estava no ponto de ônibus. Sua boca se movia, mas ele não falava com ninguém. Apenas reclamava para si enquanto olhava o motorista pelo retrovisor, afastando-se:

            — Droga. Por um minuto não alcanço o ônibus. Tenho certeza de que o motorista me viu. Agora vou ter que esperar nesse frio.

            Quando Anthony cansou de protestar contra o mundo, passou um carro em sua frente, com a janela aberta. O homem no carro o encarou enquanto passava. Começou a pensar: “O que ele estava olhando? Vai saber. Era só isso que eu queria, um carrinho para poder ir trabalhar. Não precisa ser um esportivo, já me contento com um SUV. Claro que se eu tivesse um carro desse, também gostaria de ter roupas melhores. Na verdade, a qualidade das minhas roupas está boa, só preciso de mais roupas mesmo. Umas camisetas. Uns bonés também não fariam mal. E você viu o cabelo daquele rapaz? Como eu gostaria de ter o cabelo dele. Ele estava um pouco acima do peso, mas deve ser a consequência de comer em bons restaurantes. Qual será o trabalho dele? Aposto que deve ser bom, olha o carro que ele conseguiu comprar. E para pôr a cereja no bolo, bons óculos de sol. Nem está sol e ele fica se exibindo por aí, com os óculos e a janela aberta. Como eu queria ter a vida dele. Não quer me abençoar, Senhor?” Anthony terminou essa reflexão olhando para o alto. Sua atenção foi chamada para o som de pneus derrapando, era o homem do carro fazendo uma curva brusca na contramão, que resultou em um acidente. Anthony não se importou muito “O que será que aconteceu? É, talvez não seja bom ter a vida daquele homem. Já sei, que tal o Senhor me dar a vida daquele homem sem as coisas ruins?” O ônibus chegou e Anthony foi para o trabalho. Seu dia foi bem rotineiro, chegou cansado em casa, jantou e foi dormir.

            Anthony acordou, sua visão estava embaçada, não reconhecia o que estava olhando. Era um teto branco. “Pera aí, onde estou? O que aconteceu com a cor do meu teto?” Começou a olhar para os lados. No seu lado direito, um cabideiro cheio de camisas, todas pretas e alguma estampa na frente. Do lado esquerdo, o mesmo. Em sua frente, armários, na frente dos armários, cabideiros com roupas. Perto do teto, nas quatro paredes, ganchos com uma variedade de bonés. Parecia que o papel de parede do quarto era feito de roupas. “O que é isso? De onde vieram essas roupas? Já sei, Deus ouviu minha oração. Ele me presenteou.” Anthony percebeu que a arquitetura do quarto também havia mudado. Levantou-se rapidamente, sentindo-se pesado. Ao lado de um dos cabides havia um espelho. Olhou-se e gritou. “Quem é esse? O que está acontecendo?” Começou a apalpar o rosto. Reconheceu-se como o homem do carro do dia anterior. “É, suponho que Deus foi bem literal em sua resposta, eu bem disse que queria a vida desse rapaz. E agora? Retiro o que falei, Senhor. Desfaça isso, por favor.” Anthony pulou na cama e se escondeu debaixo das cobertas. “Volta, volta, acorda, acorda.” Nada resolveu. Seu desespero foi interrompido por uma batida na porta do quarto e uma voz:

            — Natanael, você vai se atrasar.

            “Quem será? É melhor eu ir ver.” Anthony, saiu da cama e se trocou. “Esse cara realmente gosta de camisas pretas.” Mesmo diante daquela infinidade de roupas, não demorou, seu medo o deixou apressado e sem tempo para ficar escolhendo. Saiu do quarto e se deparou com uma cozinha conectada a uma pequena sala. Em cima do balcão branco, um prato com pão integral e um copo de café. Uma mulher de meia-idade, com um cheiro de cigarro equivalente a ‘ensurdecedor’, só que para o olfato, se aproximou e disse:

            — Por que está com essa cara? Odeia pão integral tanto assim? Você sabe que não está bem e deve cuidar da saúde. Não precisa ficar calado assim quando te dou um puxão de orelha, é para o seu bem. Não vai ficar bravo, né?

            Anthony despertou de um breve transe e respondeu:

            — Não, não é nada disso. Tenho que ir para o trabalho.

            — Está bem, vou levar o lixo.

            Anthony foi ao banheiro e se olhou no espelho. “O cabelo dele não parecia assim ontem, para falar a verdade, está bem feio.” Olhou para o lado, na estante do chuveiro, e viu diversos produtos capilares, xampus, condicionares, máscaras. Em cima da pia, gel e pomada. “Não vou tomar banho hoje, é melhor ir para o trabalho. Pelo menos vou de carro.” Anthony achou a chave perto da porta, porém, uma dúvida surgiu, uma das grandes. “Onde trabalho? Já sei, aquele carrão deve ter um GPS, vou ver o caminho lá.” No trajeto, o marcador de combustível acendeu e Anthony teve que parar no posto. “Ainda bem que peguei a carteira dele. Tomara que tenha dinheiro.” Não tinha, apenas cartões. “Droga, nem sei a senha. Como sou burro, também esquecei de pegar o celular, eu poderia ter aprendido muito. Dane-se, vou passar o cartão por aproximação e torcer para não pedir a senha.” Após seu plano dar certo é que Anthony se revoltou com o preço da gasolina.

Como ainda estava perto de casa, voltou para pegar o celular e partiu em direção ao endereço que viu no GPS. Enquanto dirigia, Anthony tentou fuçar no celular, mas não sabia a senha. Tentou por reconhecimento de face e por digital, mas nenhum dos dois estava disponível. “Droga, até quando terei que ficar nessa? Não me diga que é para sempre, Senhor. Aprendi a minha lição.” Nada. Anthony chegou em seu destino em uma hora e meia. “Como é longe!” Era um grande prédio de luxo, porém, sem nenhuma janela. Uma grande placa dizia: “Praias de prédio”. “Pera aí, talvez isso não seja tão mal, devo ganhar um dinheiro bom, olha esse lugar. Terei que me adaptar, mas é só manter a calma.” Ao se aproximar da porta de entrada, ouviu do segurança:

            — Decidiu chegar, é? Hoje você está lá na ‘dois’.

            Anthony apenas acenou e continuou caminhando. “Essa foi fácil, é só ir para a ‘dois’, o que quer que isso seja.” Lá dentro, Anthony pensou que descobriu qual era o negócio do prédio. Algumas fotos apontavam para praias. “Deve ser um lugar de turismo.” Na frente da recepção, Anthony decidiu arriscar, disse para a recepcionista:

            — Bom dia, hoje estou lá na ‘dois’, sabe o caminho mais rápido?

            A recepcionista, sem mudar sua expressão nem mover qualquer parte do corpo, apenas tirando os olhos do celular e olhando para Anthony, disse:

            — Que tal você entrar no elevador e apertar o número dois?

            Anthony ficou tão contente com o sucesso de sua tática que nem se irritou com a ironia da moça. Foi até o elevador, apertou o número dois e aguardou ansiosamente. A porta se abriu e Anthony começou a ouvir um barulho muito peculiar, o som do mar. Ele andou adiante e à frente dele, uma extensa parede branca. Lá no canto, uma porta com um homem na frente. O homem lhe disse:

            — Finalmente. O que aconteceu? Quer saber, não importa. Hoje até que está tranquilo, mas em breve chegarão alguns clientes. Se cuida.

            O homem partiu sem que Anthony dissesse coisa alguma. Todavia, Anthony descobriu sua função ali, pois o homem lhe deixou o crachá escrito: “Segurança.” Anthony deveria guardar aquela porta para entrada e saída dos clientes autorizados. Ele ainda não sabia o que havia dentro da porta, e como os clientes ainda não haviam chegado, decidiu olhar lá dentro. A areia perto da porta já era uma grande dica. Anthony abriu a porta e ficou de queixo caído. Era uma praia dentro de um prédio. A sala era bem grande. Uma parte cheia de areia e mais à frente, o mar, até com ondas. As paredes simulavam o horizonte e a iluminação, o sol. Era uma empresa que oferecia a experiência de uma praia dentro de um prédio. Era muito bem feito, dentro do possível, é claro, mas ainda não se comparava a praia de verdade. Cada andar tinha uma praia. Sua incredulidade foi interrompida pelo apito do elevador e a chegada dos clientes. Anthony apenas seguiu o fluxo. Verificou o crachá de todos e permitiu que eles entrassem. Depois ficou apenas parado ali. Após algum tempo, seu celular tocou. Era o banco cobrando as parcelas do empréstimo para o carro. “O dinheiro desse homem vai todo em camisas pretas e gastos do carro. Quanto será que ele ganha?” Anthony perguntou ao gerente do banco para lhe lembrar valor da renda declarado no ato do pedido de empréstimo. Anthony até se engasgou quando ouviu. Desligou na hora e tentou não se preocupar. “Vou cortar gastos, principalmente o de roupas.” Repetiu o procedimento do trabalho algumas vezes durante o dia, até que outro segurança chegou e o mandou embora. Anthony estava muito cansado, quase não comeu durante seu intervalo. Apenas voltou para casa e dormiu. Na cama, pensava: “Por favor, Senhor, tem misericórdia de mim. Sei que errei e tive inveja. Que eu possa acordar de volta em minha vida amanhã.”

            Na manhã seguinte, nada havia mudado, Anthony ainda estava no corpo de um estranho. Ainda faltava uma coisa para ele perceber antes que Deus o levasse de volta a seu corpo. “Acho que ainda ficarei nesse corpo por um tempo, me recuso a acreditar que ficarei assim para sempre.” Anthony teve uma manhã menos agitada, conseguiu acordar no horário, comer e se arrumar. Até passou gel no cabelo. O dia estava nublado, mesmo assim, pensou: “lá na praia é bom ficar de óculos escuros.”

            No trajeto, avistou de longe um homem no ponto de ônibus. “Olha só que beleza, sem gastos exagerados de carro, uma boa roupa, e aposto que tem um trabalho bom. Como eu queria a vida dele”. Ao se aproximar, ficou surpreso e abaixou a janela para ver o homem melhor. Era ele mesmo, era seu antigo corpo. “É isso, porque não fui ver como estava meu corpo?” Fez uma curva brusca e bateu o carro, perdendo a consciência. Quando acordou estava olhando para o retrovisor de um ônibus se distanciando. Finalmente entendeu. “Quando olhei de fora, percebei que a vida que quero é a minha, a que Deus me deu. Percebi o que fiz. Eu pensava que sabia o que era melhor para mim, mas é o Senhor que sabe, eu julgava que me contentaria com uma praia de prédio, mas sei que o Senhor tem a praia de verdade. Me desculpe.” Depois de alguns segundos, Natanael passou pela rua, sem nenhum acidente.

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