Toothpick - Um conto de ficção cristã

Toothpick é um conto de ficção cristã sobre a ilusão de que não dependemos de Deus. Nele, um Pai envia seu Filho para resgatar sua filha dos perigos desse mundo. Será que ela irá reconhecer seu irmão e aceitar sua ajuda? Será que ela reconhecerá a própria fragilidade, seus erros e voltará para casa? Ou continuará achando que para enfrentar a morte, o que basta é um mero Toothpick?




Toothpick

 

            O Filho estava no topo da roda gigante a uma eternidade. Estava junto do seu Pai e do vento. Conversava com eles a respeito do que faria quando chegasse a hora de descer. Ele sabia que aquilo era necessário, não por ele, mas por sua irmã. Seu Pai lhe disse:

            — Daqui a pouco a roda gigante voltará a se mexer, e quando estivermos lá embaixo, terá que descer. Estou com saudades da sua irmã, lembro-me de quando ela era uma criança, quando eu a acolhi, dei a ela um manto para se cobrir, lavei-a, enxuguei-a e a ungi, dei-lhe roupas da melhor qualidade, além de lindas joias. Também dei a ela a melhor e mais saborosa comida, ela ficou muito formosa. Porém, quando chegou um certo dia, ela cresceu e se corrompeu, entregando-se a homens estranhos.

            — Eu sei, ela pegou os presentes que recebeu e os jogou fora.

            — Ainda assim, quero que ela volte, vamos tentar de uma vez por todas?

— Sim. Sei que combinamos isso faz tempo, irei até o fim.

— Sua irmã não irá se lembrar de você, então terá de explicar o que está fazendo ali.

— Além disso, há a carta que enviamos a ela falando que eu viria. Tomara que ela tenha lido. De qualquer forma, explicarei tudo, deixarei as coisas bem claras.

            A roda gigante voltou a se mover. Alguns minutos depois, o Filho desceu da cabine, era noite. Ele, que usava roupas simples, uma mochila simples, tinha um corte de cabelo simples e uma fisionomia simples, olhou para os lados e viu uma diversidade de luzes do parque de diversão. Luzes chamativas, brilhantes e piscantes. Cada uma convidando para uma atividade, acertar o alvo, uma corrida, pesca, e outras, além, claro, da comida, pipoca, algodão doce, cachorro-quente, e muitas outras. Era um parque de diversões aberto e havia outros estabelecimentos ao redor. O seu alvo se encontrava poucos quarteirões adiante.

            Andou sem pressa por algumas ruas e parou antes de um cruzamento. Ficou olhando para a mulher na esquina do outro lado da rua, ela era ruiva e tinha roupas coloridas como as luzes de neon e uma bolsa e comia uma azeitona em um palito de dente. Começou a massagear os dedos: “chegou a hora”. O ambiente, além das roupas da mulher, não tinha cor. A única coisa que dava algum tipo de vida para o local, era uma planta murcha no canto de um muro.

Enquanto esperava o sinal, o Filho olhava a distância e percebeu um homem atrás de uma janela de vidro, ele apontava-lhe uma câmera com uma grande lente. O Filho pensou: “Ainda não é hora.” Colocou o braço direito na frente do rosto, enquanto olhava para a direita. A foto tirada apenas via a parte inferior de sua face. Se aproximou da mulher, que o encarou com desdém. Ela perguntou se ele gostaria de algo. O filho pensou: “Ela realmente não se lembra de mim?” Ela ainda tinha o palito de dente na boca. Ele disse:

— Eu apenas quero conversar.

Ela ouviu a voz do homem, e pode ser que, em outras ocasiões, ela achasse aquilo estranho, que não seria verdade ou que o homem seria um problema, mas dessa vez, ela acreditou nele e apenas baixou a guarda. O Filho disse:

— Está muito frio, pegue o meu casaco.

— Olha, eu não acho que você seja um dos malucos que eu já encontrei por aqui. Mas nem pense em nada, se não você pode sair daqui machucado.

— Como eu disse, eu só quero conversar. Inclusive, depois, você poderá ir embora.

A mulher sentiu, mais uma vez, o peso da voz e das palavras daquele homem. Seus ombros caíram. A mulher disse:

— Sobre o que você quer conversar?

—Você recebeu uma carta recentemente?

— Como você sabe?

O Filho explicou que era o homem da carta, e continuou:

— Eu quero te fazer uma oferta. E vou ser direto aqui, quero que você saia deste lugar, eu cuidarei de você.

— Do que você está falando? Olha, não me leve a mal, você está no lugar errado, pensei nisso desde que coloquei os olhos em você. Você tem um olhar inocente. E outra coisa, você também não parece ter muitos recursos.

— Você não se lembra das riquezas do Pai?

— Eu ainda não entendi o que veio fazer aqui.

— Eu te disse, vim para te salvar dessa vida. Quero que você volte comigo.

— E quem disse que eu preciso da sua salvação?

—Você não está se iludindo? Acredite em mim, eu digo a verdade, eu quero te levar por um caminho em que você encontre vida.

— E, hipoteticamente falando, como seria isso? Voltaríamos para a casa do Pai? Como se nada tivesse acontecido.

— Será tudo nosso, de graça.

— Deve ter um porém. O que eu teria que te dar em troca?

— Só tem que aceitar o seu presente e querer voltar para casa.

— Isso seria muito bom para ser verdade.

— Se me conhecesse de verdade, diria o contrário, é bom demais para não ser verdade.

— Pena que é tudo uma hipótese.

— Não. É tudo real, te garanto.

A conversa foi interrompida por uma voz. Um homem de capuz apontava um revólver para ela:

— Chegou a hora de pagar. E é a dívida de uma vida.

A mulher pegou o palito de dente, apontando-o ao homem de capuz. Ele disparou para cima. “Foi por isso que ela não jogou o palito fora.” O Filho disse:

— Você acha que um palito de dente é o bastante? Ele irá te matar.

A mulher agarrou o Filho e começou a puxá-lo para perto. O Filho disse:

— Eu sabia que você faria isso, é para isso que eu vim. Se é a dívida de uma vida que ele quer... Eu disse que cuidaria de você, espero que isso seja prova o suficiente. Me encontre na roda gigante, isso é, se você acreditar em mim. Deixarei o vento com você. Não importa o que seja dito, ou o que aconteça, eu estarei lá para te levar até o Pai. Porém, você terá de usar o que está aqui.

Ele entregou uma mochila a ela. Ele não estava mais sendo puxado, mas se colocou voluntariamente diante do novo disparo. A mulher, depois dos disparos cessarem, viu o Filho no chão, que, em seu último suspiro, disse:

— Está pago.

A mulher saiu correndo e se escondeu, pensando se deveria aparecer na roda gigante: “será que não será perigoso? E se me encontrarem? Ele morreu.” Após três dias, foi quando um forte vento passou por ela. Ela olhava para os lados, percebendo sua miséria. Sem saber explicar a razão, ela decidiu ir para a roda gigante. Não sem antes colocar um vestido branco que encontrou na mochila que recebeu. As distrações do parque e das ruas não foram o bastante, de longe, ela já havia avistado o seu salvador, ele sorria, de braços abertos.


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