O Bonsai de Ag - Um conto de ficção cristã

 

O Bonsai de Ag é um conto de ficção cristã sobre a ganância e esperar em Deus. Nele, Enrico recebe uma promessa de Deus e alguns dias depois, um de seus pacientes lhe dá um Bonsai, O Bonsai de Ag.






 
O Bonsai de Ag

10 de abril
            Sem dinheiro e, agora, sem namorada.
            — Você é um perdedor, não presta nem para comprar um presente pra mim. — Disse ela, na semana passada.
            Enrico não sabia qual conta pagar, escolheu ficar sem gás por alguns dias. Sem recursos, sem companhia, sem esperança — não — apenas um pouco de esperança. Porém, rico, só no nome.
            O que restava de sua esperança foi usada para ir à capela do hospital em que trabalhava, colocar-se de joelhos e pedir a qualquer deus que o respondesse:
            — Dizem que as situações ruins são feitas para nos levarem a Ti. Aqui estou. Se você existe, por favor, me ajude.
            — O que quer que eu lhe faça? — Um homem, que apareceu ao seu lado em um piscar de olhos, disse.
— Quem é você?
— Fui enviado por Deus.
— Você é bem diferente do que eu esperava.
— Então? O que quer que eu lhe faça?
            — Eu quero ser rico.
            — Já não é o senhor de sua casa?
            — Sim, de uma casa que não tem nada, nem ninguém.
            — E o dinheiro lhe trará essas coisas?
            — Se é pela falta de dinheiro que não as possuo, é o tendo que as conseguirei.
            — Está bem, irei atender o seu pedido, mas, antes, terá que confiar em mim.
            — E como posso fazer isso?
            — Esperando que eu haja.
            — Por quanto tempo?
            — Até que eu haja.
            — Eu entendi, mas quanto tempo é isso? Um dia? Uma semana?
            — Um pouco mais do que isso.
            — Mas quanto mais, só um pouco mesmo?
            — Não se preocupe, eu o ajudarei na melhor hora.
            — A melhor hora não é agora?
        —  Não, ainda tem algumas coisas para acontecer, principalmente com você, mas estou preparando tudo. Apenas confie em mim.
            — Quase me esqueci, já que estamos aqui, posso te pedir outra coisa?
            — Fale.
            — Creio que você saiba da minha condição física, não é?
            — Sim.
            — Então...
— Está bem, ao mesmo tempo em que chegar a sua herança, você será curado.
            Enrico ficou esperançoso. Só lhe restava confiar. E confiou como nunca, no primeiro dia, e no segundo também. Até que no mesmo dia em que recebeu seu salário, gastou-o por inteiro. Sua confiança em Deus diminui um pouco, mas ele se lembrou: “levará um pouco mais de uma semana. Confiarei em Deus por alguns dias, e ficarei rico.”
15 de abril
“Não deve faltar muito, no máximo 10 dias, Ele sabe que minha situação é difícil.” Enrico estava verificando alguns prontuários, em seu turno da madrugada, quando recebeu um chamado para acomodar um novo paciente, um senhor com problemas respiratórios. A primeira impressão de Enrico sobre aquele homem de nariz grande e cabelos grisalhos foi que ele parecia assustador, e quando chegou perto, sentiu um cheiro azedo fortíssimo, ele, provavelmente, não tomava banhos há dias. Mesmo assim, o tratou com atenção. Enrico perguntou o nome do senhor.
—Bem, pode me chamar de Lê. — Disse, com sua voz rouca.
— Lê? Vamos te pôr num quarto e te deixar confortável.
Depois de acomodá-lo em um dos quartos, o idoso disse:
            — Enrico, você me recebeu muito bem. E sei que estou prestes a partir desse mundo. Não tenho ninguém e acabei de tomar uma decisão. Quero deixar minha herança para você.
            “É essa a resposta de Deus? Valeu a pena confiar. Tomara que esse homem seja podre de rico.” Enrico, normalmente, duvidaria de tal fala, mas lembrou-se da promessa do homem enviado por Deus.
            — Como assim, Sr. Lê?
            — Você deve achar que estou delirando, mas não estou. Você vai cuidar de mim nos meus últimos dias, como ninguém cuidou. Quero que minha herança fique com você.
            Enrico queria perguntar qual era o valor da herança, mas ficou envergonhado. Passou a analisar alguns sinais que poderiam apontar para uma resposta. “As roupas dele são baratas, ele usou um convênio barato, e não toma banho faz tempo, sua herança deve ser um par de sapatos sujos e algumas dívidas.” O homem interrompeu seu pensamento, como se soubesse de suas indagações:
            — Quer saber o valor?
            Enrico acenou e deu de ombros, querendo fingir desinteresse.
            — É uma árvore. Está lá em casa. Pedirei a um dos meus empregados para trazê-la.
            — Sr. Lê, como irão trazer uma árvore aqui?
            — Amanhã você verá.
            Enrico voltou para casa depois de seu turno sentindo-se como se fosse o alvo de uma brincadeira de mal gosto, havia pensado que o homem lhe daria uma boa herança, afinal, não recebeu uma promessa de Deus? Mas o homem diz que lhe dará uma árvore?
16 de abril
            Enrico descobriu algo impressionante. Ao lado de Lê, em uma mesa, havia uma pequena árvore em um pequeno vaso.
            — Enrico, finalmente chegou, eu estava ansioso para te mostrar. Olhe só.
            — Esta é a arvore que queria me presentear?
            — Ela mesma.
            — Agora eu entendi, ela é tão pequenininha. Como chamam mesmo? Uma bonsai?
            — É um bonsai. — Gritou Lê. — Desculpe, desculpe. — Sussurrou.
            — Me desculpe, eu não sabia. Mas ele é artificial, não é?
            — Não, ele só é diferente.
            — E essas folhas estranhas e cinzas?
            — Chegue mais perto, Enrico, tenho que lhe contar um segredo e você não deve dividi-lo com ninguém, entendeu?
            — Entendi.
            — Esse bonsai é especial. Ela dá moedas de prata. Eu a chamo de Bonsai de Ag.
            “Ele deve ser um cientista.”
            Enrico perguntou:
            — De prata?
            — Não está prestando atenção no que eu digo, idiota?
            Enrico se afastou.
            — Me desculpe, me desculpe. Sim, esse bonsai dá folhas de prata, isso pode te deixar riquíssimo. Basta você arrancar as moedas e vender. No dia seguinte, as moedas já terão crescido de novo.
            — Não posso acreditar.
            — Não é só isso. A seiva dela pode curar qualquer doença. Você dever retirar um pouco da seiva com uma seringa e ingeri-la todos os dias.
            — Não posso acreditar.
            “Isso mata as minhas dúvidas, a herança e a cura chegaram juntas.”
            — Mas há um porém, como qualquer árvore, ela precisa de cuidados.
            — Água e sol, suponho.
            Lê ergueu a voz:
            — Não. — Então continuou, mansamente. — Água e sol, não. Essa árvore é diferente, ela não se alimenta de luz, nem de água, mas, sim, de escuridão e sangue. Você deve deixá-la sempre no escuro e, todos os dias, regá-la com seu próprio sangue. É assim que ela produzirá a prata e a seiva que irá te dar saúde.
            Enrico não se importou com os cuidados da planta, apenas com sua riqueza.
            — Irei te indicar uma pessoa que conheço que comprará a prata sem te fazer perguntas. — Disse Lê.
            Enrico levou a planta para casa e a colocou dentro de um armário, não sem antes coletar todas as folhas, que eram moedas, furar seu dedo com uma agulha e deixar algumas gotas escorrerem na terra em que o bonsai estava. “Deve ser o suficiente.”
17 de abril     
Era como primavera, as folhas haviam nascido. Enrico estava fascinado, era tudo verdade, era prata de verdade. O ditado que dinheiro não dá em árvore não se aplicava mais a Enrico. Sua ganância quase o fez esquecer da seiva. Retirou a seiva com uma seringa e já esvaziou o êmbolo em sua boca. Não havia um gosto amargo de remédios, era doce, muito doce, enjoativamente doce. Se aquilo não o curasse, certamente o adoeceria.
            Enrico não encontrou mais Lê, ele havia recebido alta. Enrico não ligava, queria desfrutar os benefícios de seu Bonsai de Ag.
24 de abril
            Enrico já estava rico, sem dívidas e sem trabalho. Cada dia lhe dava, aproximadamente, 0.5 kg de prata, o que lhe rendia, 2 mil reais por dia, 14 mil reis por semana, 60 mil reais por mês, 720 mil reais por ano. Imagine quanto ganhava o homem a quem ele vendia.
            Não demorou para que trocasse seu apartamento e o enchesse de coisas; para que trocasse seu carro e o enchesse de mulheres, que ele tratava e se tratavam como coisas. Sua saúde? Havia melhorado, mas não muito. Tudo isso era a recompensa por deixar a planta no escuro e regá-la com algumas gotas de sangue.
2 de junho
            Enrico reparou um padrão, quanto mais escuro o local e por mais tempo, mais prata a planta daria. Ele percebeu que quanto menos luz se aproximasse do bonsai, mais folhas brotariam, então, mesmo que ele a deixasse dentro de um armário sem qualquer luz, deixar o quarto escuro ajudaria, e deixar a casa escura ajudaria ainda mais, e assim por diante. Enrico passou a viver na escuridão, conseguindo dobrar o valor recebido do bonsai. Teve a mesma ideia com o sangue. Qual a quantidade de sangue necessária para se curar de sua condição? Enrico retirou sangue o bastante como se fosse doá-lo, 450 ml.
3 de junho
Tomou a seiva, e o resultado foi expressivo. Estava curado. Mas para ter o mesmo vigor todos os dias, teria que repetir o feito diariamente. Ele sabia que isso não era possível, quantas vezes ele não viu pessoas desmaiando na doação de sangue? Apenas repetiria dose de sangue de 450 ml em três meses.
            Até sua namorada conseguiu de volta. Agora poderia lhe dar todos os presentes aos quais ela, na verdade, não merecia, e muito mais.
3 de julho
            O estilo de vida que a riqueza material trouxe a Enrico também lhe trouxe más companhias, a seiva do bonsai não era mais sua única droga. Derramando uma quantidade certa de sangue, mesmo não sendo totalmente curado, Enrico ficava forte e resistia aos efeitos colaterais de outras substâncias, sua tolerância para o álcool se tornou sobre-humana. Só que ele não conseguia derramar grande quantidade de sangue diariamente, então no dia após em que ele usava pouco sangue, sentia-se muito mal pela própria falta de sangue em suas veias. Esse não foi o único efeito colateral. Enrico raramente ligava as luzes de sua casa, e nunca entrava nenhum tipo de luz natural. Sua visão começou a piorar e seu sono era irregular. Quando a quantidade de sangue era mínima, ele ficava sempre pior, e para melhorar, deveria regar a planta em maior quantidade, isso se tornou um ciclo vicioso. Mesmo sentindo os efeitos colaterais, Enrico demorou a ver isso com o problema, diminuiria a quantidade de sangue vagarosamente, porém, em certos dias, iria se sentir tão mal que despejaria mais de seu sangue naquela pequena árvore. Ele também reduziria a escuridão em que vivia, mesmo que lhe custasse a prata. Tudo parecia bom em seu planejamento, mas ele já havia tido gastos em que precisaria do dinheiro, portanto, teria que perdurar no escuro até pagar as dívidas.
20 de julho
            Chegou ao ponto de haver dias em que Enrico não colocava sangue nenhum na planta, mas tinha que ficar acamado, e sabia que precisava de luz, então abria todas as cortinas. Isso reduzia o efeito da seiva a zero e o valor da prata. Ele ficou tão doente e endividado que sua namorada o deixou de novo.
“Eu tenho que voltar a Capela.”
            — Essa é a sua ajuda? Olhe o meu estado, estou com mais dívidas e minha saúde está pior. Não irá me responder?
            — Nos encontramos de novo.
            Enrico olhou para o lado. Lê continuou:
            — Então, está cuidando bem de meu bonsai?
            — Por que o senhor me deu aquilo? Ele acabou com minha vida.
            — Não era esse o seu pedido? Ele não atendeu aos seus desejos? Ele não te deu dinheiro? Não te deu saúde? Por que está tão quieto?
            — Foi Deus que te mandou aqui?
            — Deus? — Lê riu. — Como você pode ser tão burro? Não viu o que estava bem diante dos seus olhos. Se eu tinha o Bonsai de Ag, e ele me trouxesse tanta riqueza e saúde, por que eu estaria em um hospital? Por que minhas roupas seriam trapos velhos e sujos? Sua ganância o cegou. Você não estava servindo a Deus, mas sim a Mamom. Eu ouvi sua conversa com Ele. E normalmente eu não posso fazer muita coisa, mas você foi um tolo. Ele não te disse que a benção demoraria mais de uma semana? Mas é assim que vocês agem, pedem uma benção a Deus e se ele não entrega como se fosse um motorista de correios, vocês aceitam a maldição do Diabo.
            — Quem é você?
            — Eu sou muitos. Eu sou uma Legião. Fiquei sabendo que sua benção chegaria depois de dez dias, seria aceito em um programa experimental para o tratamento de sua doença, e como não havia muitos pacientes, você receberia por isso uma grande quantia. Nesse período ele também trataria o seu caráter, não viu o que o dinheiro fez com você? O tratamento lhe curaria de forma sobrenatural. E você receberia, como dizem? Uma bolada.
            — A cura e o dinheiro ao mesmo tempo.
            — Exatamente, mas você não estava mais aqui no hospital, não demorou um dia para que você se demitisse. Então não encontrou o médico que estava selecionando possíveis pacientes, assim, outros foram escolhidos.
            — E agora, você já acabou com meu corpo e minha alma, veio coletar meu espírito?
            — Não, infelizmente, o homem lá de cima não me deu permissão para tal. Enquanto posso, vim aqui tirar um sarro da sua cara e rir da sua desgraça. Parece que você é um dos escolhidos Dele. Isso é, se a partir de agora, jogar suas cartas corretamente.
            — E o que devo fazer?
            — Por que acha que te direi, seu imundo?
            Legião começou a engasgar, então começou a tossir severamente. Ficou de joelhos, com uma saliva escura escorrendo no chão, ele disse, como se estivesse sentindo dores e ofegante:
            — Jo...ão...seis...vinte e...no...ve.

            Havia uma bíblia no banco da capela, Enrico abriu no versículo dito pelo demônio. “Jesus lhes disse: “Esta é a única obra que Deus quer de vocês: creiam naquele que Ele enviou”.


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Comentários

  1. Olá graça e paz! Poderia ter autorização para postar o conto o Bonsai de AG no site:https://mbpublicacoes.mystrikingly.com/?

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